Jornal Mineiro de Psiquiatria
 

                                     

   Perguntas que não calam

por Humberto Campolina

 

         Vivemos uma era em que a militância de alguns estimula a covardia de outros.” (Reinaldo de Azevedo)
  

 

Belo Horizonte é mesmo uma cidade peculiar. Em menos de quatro semanas, tivemos a marcha das vadias, a da maconha, o prefeito resolveu salvar o clima da Terra proibindo sacolas de plástico nos supermercados e substituindo, por decreto, os copos de vidro nos bares por copos de... plástico. Por fim, last not least, teremos a primeira residência de antipsiquiatria do mundo, onde serão ensinados todos os malefícios da eletroconvulsoterapia e da internação hospitalar, condutas estas usadas pelos carcereiros travestidos de psiquiatra em todos os cantos do mundo. 
Recentemente enviei a uma sobrinha recém-formada em medicina um texto de Reinaldo de Azevedo, no qual o jornalista associava com muita propriedade o fechamento de leitos hospitalares do SUS  pelos antipsiquiatras do Ministério da Saúde (e o consequente aumento dos moradores de rua) com a campanha da descriminação das drogas (aqui), conclusão que não nos exige tanto esforço, pois até as pedras da esplanada dos ministérios sabem que a política de tratamento denominada “redução de danos” e a presença de figurões do partido no poder em passeatas pró-liberação da droga apontam nessa direção.
Pois bem, minha sobrinha enviou tal texto a sua preceptora e a um colega de residência, que pretende especializar-se em psiquiatria, pedindo-lhes as respectivas opiniões. Ambos iniciaram as resposta com o clássico “não é minha praia, mas...” para em seguida desmancharem-se em elogios à “reforma psiquiátrica” e, como dizem na minha terra, descerem o bambu na psiquiatria que, segundo eles, precisa ser “humanizada” com a proscrição de certas práticas terapêuticas anacrônicas. 
O fato acima referido emite dois sinais evidentes demais para serem ignorados:

  1. De fato a elite falante brasileira é mesmo como diz o filósofo Olavo de Carvalho: não estuda nada e tem opinião sobre tudo; palpiteiros congênitos, que se deixam seduzir por palavrório pomposo, flatus vocis, quimeras semânticas que ornamentam invariavelmente o oco discurso antipsiquiátrico.
  2. Os antipsiquiatras estão cada vez mais próximos de alcançar o objetivo premeditado de destruir a psiquiatria brasileira. Por um motivo muito simples: eles sabem que estão travando uma guerra (velada, pois são oblíquos e dissimulados...), e os psiquiatras não sabem ou, pior, se recusam a saber.

Aqui é impossível não perguntar: por onde anda a Associação Brasileira de Psiquiatria? Como responde ao fato conhecido de reservarem ao psiquiatra uma cadeira de suplente,  com o mesmo poder decisório do dentista, no Conselho Federal de Saúde Mental? Por que insiste em manter em seus quadros gente sabidamente  ligada à antipsiquiatria (avisos não faltaram)? Aqui em Minas, por exemplo, a ABP arregimentou um grupo diretamente responsável pela ascensão dos antipsiquiatras ao poder público. Por que insiste em ser “democráticos” com instituições que odeiam a democracia, e têm como finalidade somente a destruição do saber psiquiátrico (é o mesmo que ser democrático com o estuprador na hora mesma do estupro)? Por que enche de rapapés quem lhe reserva somente bordoadas? Como reagiu ao desprezo hostil com que foi recebida pelos antipsiquiatras na IV Conferência Nacional de Saúde Mental (enquanto os recebe muito bem em seus congressos)? Por que vai participar de um treco chamado Simpósio de Saúde Coletiva & Saúde, aqui em BH (só podia ser, né?) promovido pelo soi-disant Movimento Antimanicomial, cujos temas constam coisas tais como “A desterritorialização dos saberes”, seja lá o que isso quer dizer, e a comemoração dos 50 anos da publicação do chatíssimo, equivocadíssimo e paranóico “História da loucura” do idem, ibidem Michel Foucault (tenho certeza que 99,99% dos antis jamais o leram...)?  Aqui abro parênteses para uma sugestão à ABP: enviem um representante da aliada Associação Mineira de Psiquiatria; vai se sentir em casa...

Termino com um alerta aos psiquiatras: enquanto não encararem os antipsiquiatras pelo que realmente são, ou seja, ativistas políticos, ingênuos ou maliciosos demais, empenhados no projeto político de implantar a hegemonia cultural do Partido, à la Gramsci, às custas mesmo da psiquiatria, e insistir em tê-los como colegas profissionais dialogantes, seguirão perdendo, de batalha em batalha, e o final é conhecido: o doente morre.


 
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