Jornal Mineiro de Psiquiatria
 

                  

 

  A residência dos “antimanicomiais”

     

                                      por Humberto Campolina

 

Chega-me às mãos o documento do pedido de credenciamento provisório da residência em Belo Horizonte do movimento antipsiquiátrico mineiro, soi-disant antimanicomial. Texto ginasiano e prolixo, li-o a duras penas. Por debaixo do cipoal dos equívocos de praxe, jargões polliticaly corrects, inconsistências científicas e estatísticas mal fundamentadas, pude alinhavar os seguintes itens:

 

1- A “sustentação política” (leia-se: o chefe) da nova residência será responsabilidade do secretário municipal de saúde que, nos últimos 15 anos, com uma exceção, foi quadro do partido que, fora do poder, pregou a ética na política, e, no poder, produziu o conhecido Mensalão.

 

2- Os defensores da nova residência não estão nem um pouco satisfeitos com a “plotagem” (sic!) dos atuais residentes de psiquiatria brasileiros e com “as instituições e programas tradicionais do mundo inteiro, sejam aqueles centrados nos hospitais psiquiátricos ou nas Universidades” (p. 3).  

 

3- Para mudar radicalmente os caminhos da psiquiatria brasileira, propõem um programas de residência psiquiátrica que  corrija, segundo eles, a dissociação dos programas atuais em relação à nova realidade produzida pela “reforma psiquiátrica” (p. 3)

 

 

4- Em nenhuma parte do texto se referem ao saber psiquiátrico como qualidade almejada; reverenciam, contudo, que os novos psiquiatras assumam o papel, em relação aos usuários da “rede” (vocábulo que parece lhes dar água na boca), de produtores da consciência de que são “antes de tudo sujeitos políticos, autorizados pelos efeitos da construção democrática e republicana [sic] a participar na formulação política” (p. 5).

 

5- Não fazem referência em lugar algum, nem mesmo como contraponto, do documento Diretrizes para um Modelo de Assistência Integral em Saúde Mental no Brasil(*), produzido pela Associação Brasileira de Psiquiatria em 2006; em compensação, brindam com duas citações na bibliografia um livrete da dra. Gilda Paolielo, integrante da atual diretoria da ABP e editora do periódico “O Risco” da Associação Mineira de Psiquiatria (p.19-20).

 

6- Para dar o salto qualitativo pretendido, a nova residência contará com uma plêiade de preceptores cujo traço comum é o fato de comungarem os papéis de funcionários públicos da Prefeitura de Belo Horizonte e companheiros de viagem na causa “antimanicomial”.

 

7- Modestos, acreditam que a assistência que eles mesmos prestam à população de doentes mentais de Belo Horizonte “é reconhecida nacional e internacionalmente como uma das mais eficazes(...)” (p. 1; grifo meu).

 

8- E tornada realidade a nova residência, estarão em condições de formar profissionais capacitados para “efetuar assistência e reabilitação integral, em todos os níveis de intensidade, abrangendo todo o ciclo de vida...” (p. 3; grifo meu)

 

Brava gente!

 

 

 

 

 

home